domingo, 23 de novembro de 2014

Entrevista com Volmer Silva do Rêgo - Autor de: O OLHO DE ALDEBARAN

Volmer Silva do Rêgo


Sou jornalista por formação (fui editor responsável e sócio de 3 jornais de bairro), depois cursei Educação Física, e consegui a licenciatura plena em Língua Portuguesa,  cursos de especialização em Sociologia voltada para a Educação e pós-graduado em Ciência Política. Dou aulas desde 1991 - Língua Portuguesa, Espanhola, Inglesa, Sociologia, Filosofia (tenho um livro escrito sobre). Toquei bateria por anos a fio em banda de São Paulo, com Cds e LPs gravados, estudei um pouco de piano e canto, pinto telas a óleo, acrílica, fiz várias exposições por aí (até no MASP tive um quadro exposto por 2 meses nos anos 90), estudei Arquitetura e decoração de interiores no Liceu de arte e ofícios - ensino médio técnico - paralelamente com o ensino médio tradicional feito em escola pública, fiz um curso de desenho, e sempre escrevi - jornais na escola quando adolescente, textos para teatro, livros - (tenho 13)... Desenvolvi 2 games de computador e tenho projeto para colocá-los na web (ando atrás de patrocinadores) e disseminá-los 'gratuitamente' pelas redes sociais - um para educação do ensino médio e graduação nas áreas de humanas, sociais e públicas (ensino privado e público)e outro de puro entretenimento etc...

Ano 2066, historicamente é daqui há pouco. Toda a vida na superfície do planeta desapareceu. Guerras, pestes, a Natureza e o Cosmo em movimento, as sístoles e diástoles do Universo, do grande organismo, foram as razões do desastre. Os humanos, reduzidos a uma pequena fração populacional escondem-se em cavernas hightech a 999 metros baixo do nível do solo - sabem que serão extintos - mas vivem em um novo Estado (não conseguem suprimir a ideia de um a organizar-lhes o resto de vida)embora reformulado, sem religião, sem política, sem definição antrogeográfica - uma só língua, a partir de troncos principais indo-europeu, semitas, sino persas, e são socialistas na forma do trato das pessoas e dos recursos escassos - a única ideia: sobreviver! As diferenças desapareceram. A tecnologia é avançada, e resgatada antes das hecatombes que a destruíram, tem sistemas poderosos que captam sinais de rádio vindos de uma estrela - na constelação de Touro - no olho do touro: Aldebaran (que em árabe quer dizer 'aquele que segue', o que observa). É um sinal inteligente! Outra civilização? Os líderes da pequena sociedade organizada apostam e decidem enviar uma nave tripulada até lá. Um homem, duas mulheres, depois de passarem por testes, personagens centrais em torno do qual gira o enredo, serão os responsáveis pelos cuidados e controle da nave útero programada para gerar nove fetos já em desenvolvimento, protegidos, com características e potencialidades genéticas e biológicas melhoradas e superdesenvolvidas para suportar a longa viagem de mais de 40 anos até o ponto de onde se originou o sinal. Com os adultos aprenderão a serem humanos, a nave e os computadores cuidarão do resto. Lá esperam encontrar um novo lugar, novas condições para uma nova civilização baseada na espécie humana e continuar. Para isso as pessoas sofrem as dificuldades expostas no enredo, perseguições, aventura, romance, tramas, crises, perigos.A sociedade caminha para a extinção iminente e naquela nave, nas pessoas e nos fetos, a única esperança. A nave parte, mas uma contração do comprimento e dilatação do espaço-tempo, um evento dinâmico da relatividade, uma singularidade quântica, provoca uma reação inesperada...
A Narrativa toda se dá em três espaços-realidades psicogeográficos (as 3 cidades - de Sima  - a atual na qual vivemos, cruel, desumana, competitiva, narrada pelo coletor de informações e contador de histórias Brucoe Braun; depois a cidade subterrânea - colocada no futuro e narrada pelo coronel Millwoc para Bruscoe -, e a cidade da caverna que é uma espécie de não lugar para onde não queremos ir - para baixo da terra - um útero aparentemente seguro, mas terminal), e em três tempos, presente, futuro e passado. O encontro destes personagens, cada um vivendo em seu tempo, mas repentinamente juntos, só é possível pelo fenômeno físico-quântico que os coloca num lapso suspenso de singularidade. Há uma sequência trínica que encima todo o texto - tudo, ou quase tudo é baseado nestas ternárias. 3 cidades, 3 tempos, 3 pessoas, nave com 9 fetos, um traço mítico que em parte é resgatado pela aparição de um personagem do terceiro mundo - a terceira cidade dentro da cidade subterrânea que detém informações do passado. Com isso eu procurei dar densidade dramática, e envolver diversos aspectos da minha formação e das pessoas com quem convivo, como forma de promover interatividade, troca de ideias, enfim ter o que conversar num mundo cada vez mais homogêneo e esvaziado pelos confortos materiais... Ganhei com isso até uma versão do livro para a língua espanhola. Acho que esta é uma das funções da arte literária, criar e conectar mundos e permitir que atores reais contracenem em realidades distintas, cada um contribuindo com um traçado, um jogo de cores, um 'mundo' diferente...

Olá Volmer. É um prazer contar com a sua participação no Blog Divulgando Livros e Autores da Scortecci do Portal do Escritor.

Do que trata o seu Livro? Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
É um romance de ficção sócicientifica - trata, entre outras coisas, de um casal de ciborgues às turras com o Estado (o conjunto das instituições humanas que se organizam para ordenar a sociedade e seus interesses, com instinto autopreservacionista, ou seja, o Estado procura se manter paralela e concomitantemente aos fenômenos sociais para os quais se destina), ou com o que sobrou dele, depois que o planeta terra sofreu uma devastação entrópica, dentro de uma ordem cosmogônica e contraditoriamente caótica, e também pela interferência humana. É um casal de ciborgues porque eles já sofreram interferência tecnológica na sua biomorfologia - implantes de pele, ossos, cardiovasculares, cabelos, olhos etc...Todos que recebem objetos externos e exógeno ao seu próprio corpo natural são ciborgues. Isso pode parecer estranho, mas incita inclusive uma ordem ética diferenciada, exige um convívio que lança um novo olhar sobre as pessoas e suas relações. Como eu fui coordenador de comunicações da DMR da USP pude convier por mais de um ano com estes ciborgues, readaptados, com próteses e implantes decorrentes de inúmeras necessidades e dificuldades músculoneuromotoras. Aquilo me impactou, principalmente por que existem milhões deles no Brasil que trabalham que levam um a vida normal, mas que são, muitas vezes. invisíveis aos olhos da sociedade. Minha diretora clínica me "ensinou" a olhá-los com visão crítica, social, sem esquecer da dimensão humana, os dramas pessoais e diários etc... Então imaginei em 1996 quando escrevi o livro que no futuro muito próximo, hoje já existe, de fato, quase todas as pessoas seriam meio ciborgues, com algum implante em seu corpo, alguma interferência tecnológica seja por necessidade, seja por pura vaidade. A DMR da USP é um centro tecnológico de saúde. Só juntei as peças.

Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
Meu pai era redator e escritor - filosofia e teologia.  Como denominacionista que lutava pela instauração da igreja Batista brasileira, ele teve de fazer viagens aos EUA e participar de congresso políticos, disputas pelo nome institucional da derivativa religiosa e os norte-americanos não queriam perder a hegemonia. Por isso ele teve de escrever vários textos, vários jornais e livros defendendo a sua tese teológica. Já meu avô materno escrevia cordel, reminiscência de sua vida no interior do estado de Pernambuco, onde vivia uma vida quase cinematográfica e cheia de memórias - sertão, cavalos, índios, tropas federais, Lampião, cangaço. Ele nasceu três anos depois de meu pai - em 1906 no interior de PE. Convivi mais com ele do que com meu pai que faleceu quando eu tinha 6 anos de idade, vítima da excrescência política do golpe militar de 64, aos 66 anos de idade no Recife. Já meu avô viveu até os 96...Foi o caldo que me formou...Tenho mais 12 livros quase prontos e um dia, quando tiver paz, Eu pretendo publicá-los todos.

O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
É uma piada mel contada. Uma contradição em si. Você vai numa feira e vê milhares de pessoas, as editoras com grandes estandes. Livros belíssimos, edições primorosas. Aquela ilusão de riqueza (coisa para poucos). Aí vê os eventos literários cultuados na TV, as flips, os encontros, glamour - a invasão das grandes editoras internacionais e seus títulos amparados pelo cinema, mas de baixa qualidade literária - literatice de auto ajuda, minha vida de banana, estas coisas...Outro dia li um troço assim: descubra onde gira o seu ciclo de energia e entre nele...ali será feliz...Aí pensei: "pô, eu sou humano, meu círculo é a humanidade...dá pra ser feliz aqui?"

Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Conheço faz tempo. Desde que pensei em publicar um livro. Mas sempre tive e enfrentei dificuldades financeiras, e protelei, maximizei e dilatei o tempo da publicação. Pesquisei o mercado editorial razoavelmente. Como tive problemas com um título e uma editora obscura no passado decidi relançar este livro para oficializar o trabalho - aproveito a seriedade da editora e sua expertise.

O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?
Na verdade ele faz parte de um projeto mais amplo, que é bem ambicioso - multimídia - o livro, 13 músicas orquestradas (eu compus os leit motifs e uns maestros da família fizeram os arranjos) - um  game, um média metragem de animação gráfica, um álbum de cromos, uma HQ - tudo a espera de apoio cultural, patrocínio etc... E a mensagem, se existe alguma é acreditem na humanidade, só ela pode se salvar de si mesma, porque nela está contido a essência divina que a conduz nesta travessia cosmológica. Mas, no cerne de sua construção reside o vírus da destruição, então, é a luta eterna entre 2 princípios. Somos os heróis de nossas sagas.

Obrigado pela sua participação.

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