terça-feira, 3 de março de 2015

Entrevista com José Mendes de Oliveira - Autor de: DA CONSCIÊNCIA COMPORTADA À DIALÉTICA DA EXISTÊNCIA: UM CONFRONTO DE DURKHEIM E FREUD

José Mendes de Oliveira
Nasceu no Núcleo Bandeirante, cidade satélite de Brasília – DF, em 1960. Formado em Ciências Sociais (Habilitação em Antropologia) pela Universidade de Brasília, obteve nessa mesma Instituição o título de Mestre em Sociologia em 1988. Atuou como docente no ensino superior, por cerca de doze anos, nas áreas de Antropologia Cultural, Sociologia Geral, Sociologia da Arte, Sociologia da Educação e Ética. Foi professor da União Pioneira de Integração Social (UPIS) e da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (FADM) entre os anos de 1986 e 2003. Trabalha desde 1988 na Escola Nacional de Administração Pública – ENAP, onde desenvolve atividades referentes à concepção, elaboração, execução e avaliação de projetos de ensino destinados à capacitação de servidores públicos. Entre os seus temas de leitura favoritos encontram-se além da sociologia, antropologia e psicanálise, estudos relativos à filosofia, educação, artes e literatura, teoria política e história, além da leitura dos quadrinhos, destacando-se o trabalho de Bill Watterson.

Constitui exercício de reflexão sobre a sociologia formulada por Emile Durkheim, mais precisamente no que se refere à abordagem da dimensão normativa da vida social e sua relação com a individualidade dos sujeitos. Essa questão é problematizada observando-se o conceito de consciência em sua expressão coletiva e individual e os aspectos concernentes às representações (eixo da cultura) e distorções da percepção (eixo do conhecimento). O confronto dos aportes teóricos de Durkheim com a teoria psicanalítica permite ao autor, ao mesmo tempo, considerar o reducionismo sociológico de um ponto de vista crítico e verificar em que sentido os conceitos formulados por Sigmund Freud podem contribuir para enriquecer o debate sobre as mediações entre a vida coletiva e o indivíduo no contexto da Teoria Sociológica.
Olá José. É um prazer contar com a sua participação no Blog Divulgando Livros e Autores da Scortecci do Portal do Escritor.

Do que trata o seu Livro? Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
O livro é resultado de um esforço acadêmico, ou seja, ele é a reprodução da minha tese de mestrado, desenvolvida na década de oitenta. O texto passou por algumas adequações, mas guarda essencialmente as mesmas ideias e argumentos apresentados na dissertação. Trata-se de um exercício de reflexão sobre a sociologia formulada por Emile Durkheim – um clássico das ciências sociais -, mais precisamente no que se refere à abordagem da dimensão normativa da vida social e sua relação com a individualidade dos sujeitos. Esse é um tema que sempre atraiu a minha atenção, desde o momento em que entrei em contado com as teorias sociológicas e observei a dificuldade das ciências sociais em lidar com as mediações entre o indivíduo e a sociedade. Eu senti necessidade de aprofundar esse tema e, para tanto, busquei o auxílio da teoria psicanalítica. A questão é problematizada considerando-se o conceito de consciência em sua expressão coletiva e individual e os aspectos concernentes às representações (eixo da cultura) e distorções da percepção (eixo do conhecimento). Optei por confrontar os aportes teóricos de Durkheim com a teoria psicanalítica porque percebi que, ao fazê-lo, teria a chance de considerar o reducionismo sociológico – como o observo em Durkheim - de um ponto de vista crítico e, também, verificar em que sentido os conceitos formulados por Sigmund Freud podem contribuir para enriquecer o debate sobre as referidas mediações. Em respeito à verdade, a minha preocupação e as opções teórico-metodológicas não são inusitadas, mas as considero ainda muito atuais no contexto dos debates de caráter mais epistemológico no campo das ciências sociais. Por essa razão, acredito que o livro possa ser útil, principalmente para estudantes nesse campo, que se encontram enredados ou envolvidos em debates dessa natureza.

Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
A gente sempre alimenta a expectativa de que o primeiro livro seja o início para muitos outros, mas esse desejo depende de muitas variáveis, além de dois ingredientes imprescindíveis: esforço intelectual e dedicação. A oportunidade para viabilizar a publicação é um aspecto muito relevante, bem como o retorno ou resposta do público após a primeira publicação. Essa resposta pode ser um fator importante para manter o ânimo e motivação para um próximo lançamento. Porém, admito que a adesão a leituras de caráter mais acadêmico não é muito comum, principalmente em um contexto social em que o público leitor é muito reduzido e cada vez mais distante das mídias impressas. De qualquer forma, embora eu ainda não tenha plantado uma árvore e acompanhado seu crescimento, já tive meus filhos e espero que tenha outra oportunidade para lançar mais um livrinho.

O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
Não conheço profundamente os percalços vividos pelos escritores que vivem exclusivamente da produção de livros, mas, certamente, posso inferir que a situação não deve ser fácil em uma sociedade em que a educação não é prioridade (a não ser, talvez, para aqueles que se dedicam aos livros de autoajuda). Do meu ponto de vista, a demanda por leitura está diretamente relacionada ao padrão educacional dos cidadãos. No caso brasileiro é fácil perceber que essa relação deixa a desejar. De acordo com a pesquisa coordenada pela socióloga Zoara Failla, se não me equivoco em 2011, o índice de leitura espontânea do brasileiro (excluída a exigência escolar) não ultrapassava um livro por ano, situação inferior a outros países latino-americanos, a exemplo da Colômbia em que a média era superior a dois livros por pessoa. Em verdade, com o baixo incentivo à leitura e as dificuldades de acesso ao livro, inclusive em virtude do baixo poder aquisitivo da maior parte da  população, o brasileiro se prende cada vez mais ao universo da televisão, que também anda muito empobrecido quando se trata de qualquer tipo de incentivo a uma programação mais educativa. Em suma, não me parece que o cenário seja o mais favorável para o escritor e para a leitura, mas isso pode mudar desde que a sociedade e seus dirigentes priorizem a educação como base do desenvolvimento social.

Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Entrei em contato com a Scortecci por meio da Internet. Visitei pela primeira vez o sítio da Livraria e Loja Virtual Asabeça e, a partir dessa visita, procurei saber um pouco mais sobre o Grupo Editorial Scortecci e as linhas de trabalho desenvolvidas pela Editora.

O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?
Não gostaria de dar a impressão da autopromoção ou de estar realizando o merchandising do livro. Sinto-me muito acanhado para esse tipo de coisa e acredito que o leitor deve ter a liberdade de escolher e opinar sobre as suas leituras. No entanto, como comentei anteriormente, o livro pode ser útil para as pessoas, particularmente aquelas que estejam estudando o tema, que se preocupam com questões epistemológicas no campo das ciências sociais. Nesse sentido, ainda que ele não traga respostas definitivas, acredito que possa servir de subsídio para a reflexão e o debate. Para aqueles que se interessarem pelo livro, apenas gostaria de dizer, em função do meu próprio aprendizado, que se sintam à vontade para criticá-lo sempre que observarem incoerências ou argumentos que possam ser consistentemente refutados.


Obrigado pela sua participação.

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