sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista com Maristela Veloso Campos Bernardo - Autora de: DA PROVÍNCIA E OUTROS CANTOS e A MULHER OLHANDO A MENINA

Maristela Veloso Campos Bernardo
Nascida em Major Prado, distrito de Araçatuba (SP), Maristela Veloso Campos Bernardo formou-se na PUC-SP e dedicou-se à formação de professores na Unesp. Depois de aposentada começou a escrever e publicou suas memórias de infância – A Mulher Olhando a Menina – pela própria Scortecci, no final de 2010, editora pela qual, também, já publicou três contos em Encontro Pontual – Antologia de Poesias, Contos e Crônicas, 2010. Da Província e Outros Cantos contém os contos escritos entre 2008 e 2014, quando a autora voltou sua atenção aos temas recorrentes nas angústias que povoam as almas abafadas por valores morais rígidos. Valores que se tornam cruéis nas cidades do interior, mas não menos destrutivos em outras paragens.

Este meu primeiro livro de contos divide-se em duas partes: (1) Contos da Província e (2) Outros Contos. Contei histórias, inventei casos, imaginei vidas. Os contos que compõem a primeira parte tratam de temas recorrentes da vida interiorana – do interior onde vivi –, pois demorei a conhecer o mar. Desde criança ouvi contar da Mula sem Cabeça que aparecia nas madrugadas; da brasa vermelha do Pito do Saci sobressaindo-se de noite na escuridão. Sempre a noite escura, nas histórias de assustar criança... A pior me parecia a do Lobisomem, o qual eu via em minha mente como um cachorro feroz cheio de babas ao latir vendo a lua. Faz muito tempo... Portanto, o medo do “de noite” se foi. Descobri outras facetas da noite: olhei o luar com suas nuances, tive a sorte de ver estrelas cadentes. Reconheci, então, que podia até rir dos escuros a respeito dos quais me pus a especular. Tentei denominar os breus que povoam os nossos dias em sociedade, procurei ver as trevas naquilo tudo destinado ao segredo. Muitos dizem que, quando a vista se acostuma, a gente enxerga no escuro. Mas – diria ainda: tropeça-se e engana-se com algum reflexo, também. Nesta ambiguidade parti de pontos incertos que talvez tenham sido presenciados e guardados na memória. Não sei. No entanto, conjeturei e, fantasiando, escrevi. Nada é real, portanto. Apenas presumível.
A segunda parte toma assuntos daqui e dali. A cidade grande mostra seus desacordos e neles, inevitavelmente, atua o ser humano. Cá e acolá, pelas suas reentrâncias, estão motivos para se dizer bem ou se dizer mal do que se vê ou se supõe ver. Pinçar nas curvas, lá onde elas se viram e se escondem no perder de vista, é um ofício que nos desafia. Aqui, também, tentei. Mas, num ou noutro caso, há sempre razão para se exaltarem ou se evidenciarem seres que os habitam.

As mãos de meu pai pendiam de seus longos braços quando ele caminhava, e suas veias ficavam saltadas formando um desenho azul tal como um rio e seus afluentes. Elas pegavam no laço, enlaçavam os cavalos, novilhos, bois ou touros na hora da marcação com os ferros em brasa para cunhar, nos pelos dos animais, um RC de Ruy Campos.
Quando algum peão não se aligeirava, ele estava a ensinar o ponto certo onde segurar o laço, o modo de lançá-lo sobre o animal no golpe certeiro para derrubá-lo. Fazia isso de maneira silenciosa, com pouca fala, com o olhar atento.
As mãos, com golpe certeiro no uso do perfurante de metal, comandavam o furo nos sacos de estopa para examinar seus grãos de cereais; elas se prensavam e, em movimentos circulares, separavam as palhas dos grãos de arroz; em conchas, amaciavam o fumo para o cigarro e, com os movimentos dos dedos no canivete afiado, refinavam as palhas que eu escolhia a seu pedido no paiol.
Entre tantas selecionava as mais macias de dentro das espigas de milho. As mãos dirigiam o jipe, as mãos erguiam o chapéu da cabeça em cumprimento aos passantes da estrada que iam e vinham a pé ou a cavalo. Elas se espalmavam sobre seus olhos para fazer sombra e amenizar o sol quando olhava o gado no pasto.
Suas mãos me erguiam do chão e me levavam para seus braços. Foi, pois, insuportável, naturalmente chocante e repulsivo, senti-las frias, cruzadas, inertes sobre seu peito quando morto: o maior castigo que a vida até então me dera. Eu tinha 11 anos.

Olá Maristela. É um prazer contar com a sua participação no Blog Divulgando Livros e Autores da Scortecci do Portal do Escritor.



Do que trata o seu Livro? Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
O conteúdo trata-se de contos referentes à vida na província, interior, e também contos com outros temas. Acumulei contos sobre o tema e resolvi juntá-los num livro. Destina-se a um público adulto que aprecia literatura.
Trata do relato de infância vivido pela autora

Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?
Já publiquei outro livro de memórias, pela mesma editora, em 2010. Tenho intenção de publicar outros livros, pois continuo escrevendo.

O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?
Difícil em se tratando de submeter-se aos critérios das maiores editoras que são muito seletivas, usando critérios acadêmicos. Há dificuldades no tocante à divulgação.

Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?
Devido a publicação de meus contos em coletânea da própria editora, em 2010. Também a busca de uma editora independente.

O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?
Sim, merece ser lido, pois a escrita é de qualidade, além disto há o interesse pelo tema.
Para os leitores: ler cada vez mais.

Obrigado pela sua participação.

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